sábado, 30 de outubro de 2010

14 de Julho - Dia da Bastilha

Na tarde do outro dia eles encontraram-se de novo. Deixaram os sapatos no cafè e levaram calçados os patins. Vincent segurava bem em Françoise.


A pobre coitada já teria caído umas milhentas vezes se não fosse Vincent.


Atravessaram a ponte e foram até ao parque.


Lá Françoise conseguiu largar-se e patinar um pouco sozinha acabando por cair na relva.


Vincent riu à gargalhada com ela.





No outro dia, encontraram-se por acaso.



Pararam um em frente ao outro, Vincent disse-lhe que não sabia que naquele dia era feriado.



Ela explicou-lhe tudo. Soube por ela que ia haver uma festa e ele convidou-a para ir.


Françoise corou e sorriu e fez-se de rogada.


- I'll have to ask to my father... (Terei de pedir ao meu pai...)


- O.K. I'll wait for you at te party. (O.K. então eu espero por si na festa.) - E assim foi. Vincent foi até casa, arranjou-se, lavou-se todo bem lavadinho, passou a roupa duas vezes, engraxou os sapatos umas três vezes, penteou o cabelo duas vezes, verificou a barba, perfumou-se, levou cinco minutos para escolher o chapéu que ficava melhor com o casaco. Finalmente saiu de casa e foi ter ao Ringo's cafè, onde as melhores festas se davam.


Quando chegou, via apenas o ambiente mais animado de toda a Paris, com uma banda a tocar, muita gente a dançar e no meio da gente ele tentava encontrar Françoise.


Os garçons, lá andavam a servir bebidas às mesas.


E esperou, esperou e voltou a esperar....esperou mais um bocadinho...lá estava ela!


Françoise entrava naquele momento.


Várias pessoas iam cumprimentando-a à passagem.


Lá se encontraram.


- Hello! (Olá!)


- Hello! (Olá!) - Disse ela a sorrir.


- Do you want something to drink? (Quer alguma coisa para beber?)


- Yes, a coca-cola, please. (Sim, uma coca-cola por favor.) - Vincent pediu uma coca-cola, deu-lha e ficou a olhar para ela a beber da garrafa. Sorriram os dois. - Why are you staring at me? (Por que é que está a olhar fixamente para mim?)


- You have beautiful eyes. (Tem uns olhos lindos.) - Ela sorriu mais abertamente.


- I don't know which colour your eyes are. Are they green or blue? (Não sei de que cor são os seus olhos. São verdes ou azuis?)


- Neither green, or blue. They're grey. Like a wolf. (Nem verdes nem azuis, são cinzentos. Como os de um lobo.)


- Your a lamb. Tender and sweet as a lamb. (Você é um cordeiro. Carinhoso e doce como um cordeiro.) - Ela acabou a coca-cola e pegou-lhe nas mãos, levando-o para o meio da sala.


E ali dançaram até o Ringo's estar quase vazio.


Vincent tinha uma mão nas costas dela e a outra na mão dela, enquanto Françoise tinha a outra mão no ombro dele.


Finalmente sairam. Vincent pôs-lhe o seu casaco pelas costas dela.


- I'll take you home. (Vou leva-la a casa.) - Disse ele. E lá foram lado a lado, Françoise a olhar para o chão e Vincent a olhar para o ar para ver se lhe caía alguma coisa em cima (o que não ocorreu). Estava simplesmente a não querer olhar para Françoise porque não queria que ela notasse que estava todo corado.


E ela que já tinha notado isso, ria baixinho e para dentro.


À porta do prédio onde morava Françoise eles despediram-se.


- Well, I guess it's time for me to go. (Bom, acho que é hora de me ir embora.) - Françoise sorriu.


- I'll try to sleep. This evening has been wonderful. (Vou tentar dormir. Esta noite tem sido maravilhosa.)


- I'm glad that you liked it. (Estou feliz por ter gostado.) - Françoise queria fazer conversa mas não sabia como e ele idem.


- I'll go now. (Vou agora.) - Antes que ela pudesse fazer algo, desta vez foi Vincent a dar-lhe um beijo. Um pequeno beijo nos lábios vermelhos. Ela começou a rir como uma criança. A Vincent encantava-lhe aquela doçura e inocência que ela tinha. Não havia maldade nos olhos dela, apenas pureza. Era novinha, era meiga, calma.


- Now you have lipstick in your lips. (Agora tem bâton nos seus lábios.)


- Paint me. I like it. (Pinte-me. Eu gosto.) - Riram os dois á gargalhada.


- Do you love me? (Ama-me?)


- I do. And you? (Sim, e você?)- Ela abriu a porta e rindo disse:


- I won't tell you yet. (Não lhe vou dizer ainda.)


- Will you come tomorow to my cafè? (Virá amanhã ao meu cafè?)


- Maybe. - Disse ela a rir. Mais uma vez espetou-lhe com um beijo, desta vez era ela que lhe beijava os lábios. E aquele beijo foi mais profundo que o anterior. Vincent teve tempo de lhe acariciar o rosto e os cabelos e também de a puxar mais para si. Mas ela, com aquela atitude de menina, afastou-se de repente entrou no prédio e deixando-o a sorrir e a olhá-la fechou a porta.


Françoise suspirou. Naquela noite nem um nem outro adormeceram sem pensar um pouco nos beijos que tinham dado e recebido.


Vincent esperava vê-la na manhã seguinte.


Queria fazer-lhe o cappuccino que ela tanto gostava, conversar com ela na mesa á janela que ela tanto gostava, queria agarrar-lhe na mão branca e macia.


Queria ver o rosto sorridente que percebeu de que tanto gostava/amava.


Seria aquilo o que ele estava a pensar?


Françoise também pensava nele, deitada na sua cama, olhava o tecto com um olhar sonhador. Tinha deixado a janela aberta. Estava calor. A luz das estrelas daquela noite feliz de feriado nacional estava a deixa-la mais luminosa.


Gostava ela de Vincent ou ele era só um daqueles namoros de Verão do qual se rouba um beijo por divertimento?


Ela gostava dele. Tal como ela disse, ele era "um cordeiro".






quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Que bem que ela dança!

Depois daquela tarde juntos, Françoise e Vincent atracaram e quando se iam a despedir viraram-se um para o outro.



- Do you want to go for a walk tomorow? (Quer ir dar um passeio amanhã?)



- I'll be bussy. I have a ballet class. Perhaps you would like to take a look. (Vou estar ocupada. Tenho uma aula de ballet. Talvez quisesse ver.)



- That would be interesting. ( Isso seria interessante.)



- O.K! I see you at your shop. Let's say 4 p.m? (O.K! Encontramo-nos na sua loja. Digamos 16 horas?) - Perguntou ela. Ele ponderou.





- O.K. See you tomorow! (O.K. Vejo-a amanhã!) - Disse ele. Ela sorriu e cada um foi para seu lado.

No outro dia lá se encontraram.

Françoise levou Vincent até ao teatro e deixou-o a tomar conta das crianças enquanto ela se vestia.
Quando Françoise chegou já vinha de sapatilhas calçadas, com o body, uma saia e um casaco fino pretos. O cabelo vinha solto.
Entretanto chegou uma outra mulher que se sentou ao piano na sala. Vincent assistiu a tudo. Desde o aquecimento até aos últimos passos.
Quando a aula acabou, as meninas surpreenderam-no pedindo a Françoise para dançar.
Françoise indicou à pianista uma obra de Tchaikovsky e preparou-se para dançar, arqueando os braços em frente à cintura e pondo os pés numa posição estranhíssima para Vincent mas que conferia a Françoise uma silhueta bastante bela.
Finalmente pôs-se de pontas e dançou até a música acabar. As meninas olhavam-na com admiração, Vincent estava encantado. Nunca tinha visto ballet na sua vida.
Françoise não falhou um passo.
No final, Vincent esperou que ela se vestisse e foram os dois até um bistrot.

- Tired? ( Cansada?)

- Not realy. Did you liked it? (Nem por isso. Gostou?)

- I loved it. (Adorei.) - Disse ele a sorrir. Ela sorriu.

- Thank you. (Obrigada)

- For what? (Por o quê?)

- For the company, and for those amazing days. I've been most amused with you. (Pela companhia, e por estes dias maravilhosos. Tenho me divertido muito consigo.)

- You're welcome. (Não tem de quê.) - E depois de um jantar leve no bistrot, Vincent levou-a a casa. Descobriu que era quase seu vizinho, bastava atravessar duas ruas. E conseguia vê-la da varanda.

- What will we do tomorow afternoon? (Que vamos fazer amanhã à tarde?) - Perguntou ela.

- Oh! I have an idea! (Oh! Tenho uma ideia!) - Disse ele.

- What's that? (O que é?)

- We'll go skating on the park. (Vamos patinar no parque.)

- I don't know how to skate. (Eu não sei patinar.)

- I teach you. It's not that difficult. (Eu ensino-lhe. Não é assim tão difícil.)

- O.K. Goodbye then! (O.K. Então, adeus.) - Françoise deu-lhe um beijo no rosto e deixou-o ali plantado.
Vincent foi para casa, mais uma vez com a cara pintada de bâton.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Já sabes o nome agora passeia-te com ela.

No outro dia, à tarde lá estavam eles frente a frente.

Foi num momento assim que ele a olhou de alto abaixo.

Ela tinha uma camisola às riscas horizontais azuis escuras e brancas e suspensórios das mesmas cores, uma saia vermelha, e sapatos vermelhos. Na cabeça, com alguns ondas negras a sair, estava uma boina vermelha francesa.

Nas mãos, Françoise levava uma mala vermelha. O rosto ia maquilhado como habitualmente.



Vincent achava o estilo dela tão único, mas tão bonito ao mesmo tempo. Ficava-lhe bem embora fosse pouco usual.



Deram o braço a sorrir e lá foram eles passear pelo Sena calmamente no Bateau-Mouche .

Françoise como sempre, estava alegre e descontraída.

Vincent por outro lado, estava cada vez mais encolhido. Mais nervoso.

Ela sentava-se mais próxima dele, e ele afastava-se sorrateiramente. E ela voltava a aproximar-se e ele outra vez afastava-se. Isto até que ou se aproximava mais de uma velhinha algo feia (feia é favor), ou então deixava que Françoise se encostasse a ele. Acabou por preferir Françoise.

E ela lá lá se encostou e a sorrir olhou para ele dando-lhe pequenos encontrões. Ele algo encolhido acabou por se habituar àquele maravilhoso perfume e àquele cabelo negro e ligeiramente ondulado maravilhoso, aos dóceis encontrões e à brincadeira.

Até sorriu e até se sentiu bem, apesar de estar vermelho que nem um tomate.

Lá se rendeu e pôs o braço nos ombros dela.

Ela riu.



- Finnally! (Finalmente!) - Disse ela a rir.



- What? (O que foi?) - Perguntou ele nervoso.



- Do you trust me? (Confia em mim?)



- Yes, of course. (Sim, claro!)



- Why do you avoid me? All my friends like to give hugs and give hands and be close to each other. Why are you so afraid to touch another human being? (Porque é que me evita? Todos os meus amigos gostam de abraçar e de dar mãos e de estar perto uns dos outros. porque é que tem tanto medo de tocar outro Ser Humano?) - Perguntou ela. E ele sorriu-lhe.



- I'm not used to human contact. (Não estou habituado a contacto humano.) - Ela sorriu-lhe e acariciou-lhe o rosto.



- We'll change that. (Vamos mudar isso.) - Disse ela rindo. E ele por um impulso qualquer deu-lhe um abraço.

- Better now? (Melhor, agora?) - Perguntou ele a sorrir com o chapéu ligeiramente de lado, o que lhe dava um toque boémio.

- It was a quick change... Much better, no doubt. (Foi uma mudança rápida...Muito melhor, sem dúvida.) - Disse ela divertida.



E ele também riu. Françoise espetou-lhe com um beijo no rosto e deixou lá a marca do bâton vermelho.



Mas voltou a beijá-lo no mesmo sítio.



- Now it's perfect... (Agora está perfeito...) - E desataram os dois a rir como criancinhas que tinham acabado de fazer uma grande e divertida asneira.

Que rapariga!

Depois de ter feito o cappuccino e de ter dado as suas ordens ao seu empregado, Vincent voltou à mesa onde estava Françoise.
Sentou-se mais junto a ela.
Falaram sobre inúmeras coisas, ela contou um pouco de como era o seu dia-a-dia, ele contou-lhe o dele.
Ela contou-lhe o passado, ele contou-lhe o passado.

- I love your cappuccino... (Adoro o seu cappuccino...) - Disse ela a sorrir e a lamber os lábios. Os olhares cruzaram-se de novo.

- Thank you! (Obrigado!)
Dois sorrisos infantis e inocentes apareceram nos lábios deles.
Foi ela que quebrou o contacto visual olhando para a mesa com olhar modesto e o rosto algo corado.
A música no gramofone soava suave. Demasiado suave.

- Hum...do you want to go for a walk tomorow afternoon? (Hum...quer ir dar um passeio amanhã à tarde?) - Perguntou Vincent tendo a audácia para tal, ainda que uma audácia gentil e meiga.

- Yes. (Sim.) - E ele sentiu-se como se a tivesse pedido em casamento e ela o tivesse aceitado.
Que parvoíce, disse para si mesmo.


Naquele pequeno estabelecimento notava-se algo de diferente. Todos os clientes olhavam para aquela mesa com curiosidade.
Viam neles os próximos pombinhos do bairro. Mas um aperto de mão e um leve sorriso que não queria mostrar coisas verdadeiras quebrou a magia.
A magia que os dois tinham feito a par, ao longo daquele breve encontro.
E somente aquele breve encontro desencadeou todo o resto.
Falamos de sentimentos.

- Ah! L'amour... (Ah! O Amor...) - Disse o empregado.

- Shut up, Gaston! (Cala-te, Gaston!)- Exclamou Vincent algo envergonhado.
Françoise ouviu, virou-se para trás e riu. Nem ela sabia porque ria.
Agarrou-se à porta e simplesmente riu. Vincent começou a rir também ele. Gaston riu também e em breve aquele pequeno cafè estaria a explodir em risos.

domingo, 24 de outubro de 2010

E o nome dela é...Descobres segunda-feira!

Naquela manhã, Vincent começou a trabalhar ainda a mercearia não estava aberta.

Serviu alguns pequenos-almoços, vendeu dois livros a estudantes e fez encomendas para outro.

Contratou um empregado para servir na explanada.

Quando deu por isso, a rapariga que tinha procurado no fim de semana estava a entrar no seu cafè.

Sentou-se e quando o empregado se ia dirigir a ela, Vincent agarrou-o pelo braço e disse:



- I'll go. (Eu vou.)



- O.K. patron. (Ok patrão.) - Vincent dirigiu-se para a rapariga.



- Good morning! What will it be? (Bom dia! O que vai ser?)- Disse ele envergonhado.



- Good morning. Hum...I wanted to talk to you. (Bom dia. Hum...eu queria falar consigo.)



- Ah? Why? (Ah? Porquê?)



- I like you. You are as curious as I am. (Gosto de si. Você é tão curioso quanto eu.)



- I'm glad you like me, but I got to work. (Fico contente por gostar de mim, mas tenho que trabalhar.) - Disse ele algo irritado.



- Why are you being rude? (Porque é que está a ser pouco delicado?) - Perguntou ela estranhando aquela repentina raiva.



- I'm sorry. Well, let's say i'm a little disappointed. ( Desculpe. Bom, digamos que estou um pouco desapontado.)



- Tell me about it, I love intrigue, all french people do! (Conte-me, adoro intriga, todos os franceses gostam!) - Disse ela animada.



- I've spent the all week-end trying to find you to ask you name! (Passei o fim-de-semana todo a tentar encontrá-la para lhe perguntar o seu nome.)



- Oh, that's crazy. All week-end just for that? (Oh, que maluquice. O fim-de-semana todo só para isso?) - Perguntou ela admirada.



- Yes! I ran all Paris! (Sim, corri toda a Paris.)



- God! You really are crazy! (Deus! Você é mesmo louco!).



- So, could you be kind and say you name? (Então, podia fazer a gentileza de me dizer o seu nome?)



- Of cours, my name is Françoise. Françoise Roumanoff. And yours, american boy? (Claro, o meu nome é Françoise. Françoise Roumanoff. E o seu, rapaz americano?)



- Vincent.



- Vincent? Just that? (Vincent? Só isso?) - Perguntou ela pronunciando o nome dele à francesa.



- Vincent Jones. - Disse ele pronunciando o seu nome de maneira correcta.



- Plaisir, Monsieur Jones! (Prazer, Senhor Jones!)

- Plesure is mine, Miss Roumanoff. (O prazer é meu, Menina Roumanoff). - Disse ele sorrindo. - And I want to ask you your forgiveness. (E queria pedir-lhe o seu perdão.) - Vincent passou de um sorriso a uma expressão culpada.

- Why is that, Mr. Jones?

- Because I took some conclusions about you that are maybe not true at all. And I wanted to know who was the gentlemen in the bicicle that you were riding this week-end. ( Porque tirei algumas conclusões sobre si que talvez não sejam verdade. Eu gostava de saber quem era o cavalheiro na bicicleta em que estavam a andar este fim-de-semana.) - Pediu ele cabisbaixo.

- It's was my brother. He came all way from Lyon just to see us and spend some time with the family. he's working at the rail station. (Era o meu irmão. Veio de Lyon só para nos ver e passar algum com a família. Ele está a trabalhar na estação de comboios. ) - Esclareceu ela.

Vincent sentiu-se culpado por ter pensado certas coisas dela. Mas viu ali que naquela resposta estava a sua esperança. Françoise não estava comprometida. Tinha a noção que tinha de ter cuidado porque ela tinha o pai, uma criatura rabugenta que era capaz de pegar numa caçadeira e disparar por tudo quanto é Paris (e sempre acertar em qualquer coisa) e um irmão que fazia três dele e que um murro ou um safanão deste eram capazes de o mandar para a cama durante sete dias.
Ora, face a duas ameaças tão grandes, Vincent tinha que ser inteligente duplamente.
Mas o caro leitor saberá também que Françoise não era santa alguma e até ela era uma ameaça para Vincent e ele sem saber disso, o que era de tudo o mais engraçado!

- Now that I've explained everything and I think that you are informed about the subject, I'll accept your appologie if...you offer me a cappuccino. (Agora que eu já expliquei tudo e que você já está esclarecido sobre o assunto, aceitarei as suas desculpas se...me oferecer um cappuccino.) - Disse ela a rir. Ele ia levantar-se já mais bem disposto, para ir tirar o cappuccino quando ela lhe pegou na mão e o forçou a olhar nos olhos dela. - And I want your company. (E quero a sua companhia.) - E ele derreteu-se.

Maldito Domingo!

Vincent andava às voltinhas dentro de casa.
Ora bebericava chá de menta, ora olhava para a janela, como um cão à procura do dono que saíra para ir às compras.
Ah, mas espera aí!
Hoje é dia de missa!
Aventurou-se a ir correr as capelinhas todas de Paris.
Mas é óbvio que não chegou a correr todas e em nenhuma encontrou la belle fille que o tinha atendido na mercearia.
Mais tarde já depois do almoço que cozinhara para si próprio, (e ele não era grande cozinheiro, por isso passou fome de rato), saiu e qual não foi a sua surpresa quando a viu passar na sua rua, em cima do volante de uma bicicleta conduzida por um homem enorme.
Vincent olhou para si próprio. Um murro daquele homem esmaga-lo-ia se se atrevêsse a meter-se com a namorada.
E ela ia alegre e contente sujeita a cair de nariz no chão. Mas o que importava era viver (e sobreviver para contar.).
Vincent foi atrás deles e lá ouvia de vez enquanto um Pardon Monsieur!, ou um Excusez nous! E ouvia também duas vozes a cantar alegremente modinhas francesas, coisas que lembram infância e juventude.
Vincent sentou-se nos degraus do seu prédio e lá se ficou a pensar na rapariga.

A Mercearia está fechada ao Sábado. Conclusão: A rapariga bonita não está!

Sábado lá ia Vincent sair um pouco.
Fez a subida à Torre Eiffel, andou por Montmartre, viu as galerias de pintura, comeu um croissant, viu Notre Dame, passeou pelo Louvre. No fim foi até à rua onde trabalhava.
Estava tudo muito calmo.
Calmo demais.

Olhou para a mercearia. Estava fechada.
Merda! Disse ele para consigo.
Queria tanto perguntar o nome da rapariga e agora dava com o nariz na porta.
Se ao menos não tivesse sido parvo em não lhe perguntar o nome enquanto esteve com ela...
Paciência. Segunda-feira ela lá estaria de certeza.

Foi até à taberna lá perto e bebeu um copito. Entretanto foi para casa. Deixou-se lá estar, cansado e aborrecido.

sábado, 23 de outubro de 2010

A primeira ida à mercearia da rua em frente

Ao chegar ao seu pequeno apartamento, ainda a cheirar a tinta, Vincent pousou o chapéu no cabide, pôs a chaves na mesinha à entrada depois de ter trancado a porta.
Foi até ao mini-bar e tirou de lá uma garrafa de whisky.
Pegou num copo e encheu-o até meio.
Bebericou durante longo tempo. Depois foi até à janela e olhou na sua frente, a bela, a magnifica Paris.
A Paris que ele ainda não tinha visto, mas fazia intenção de ver.
Foi deitar-se depois de esvaziar o copo. No outro dia de manhã, quando chegou à sua loja, a mercearia já estava aberta.
Tinha-se distraído com as horas.
Quando ia para abrir reparou que não tinha chá.
Resolveu pegar no chapéu e ir à mercearia do lado comprar chá.
Voltou a fechar cuidadosamente a loja.
Atravessou a rua calmamente.
Entrou na mercearia.
A rapariga do outro dia estava a arrumar as prateleiras e a limpar o pó.
O pai (calculou ele que fosse o pai), estava a atender ao balcão.
Preferiu falar primeiro com o dono.

- Bonjour Monsieur...(Bom dia, senhor...) - Disse ele num mau francês. - Do you understand english? (Compreende Inglês?)

- No, No "inglish" . (Não, não "englês".) - A rapariga começou a rir.

- Laisse papa, je me débarrasserais avec lui. (Deixa papá, eu desembaraçar-me-ei com ele.) - Disse ela a pôr-se atrás do balcão. - Can I help you, sir? (Posso ajudá-lo?)

- Yes, I'm looking for tea. (Sim, estou à procura de chá.)

- Tea? What kind of tea? (Chá? Que tipo de chá?).

- Mint, strawberry, wild fruits, green, black and yellow tea. Anything you have here. (Menta, morango, frutos silvestres, chá verde, preto e amarelo. Qualquer coisa que vocês tenham aqui.) - Ela olhou para ele algo admirada. - And it has to be in a big quantity, because it's for costumers. (E tem de ser em grande quantidade porque é para clientes.)

- I don't know if I have all the flavours that you are asking for. But I'm sure that I have mint. (Não sei se tenho todos os sabores que me está a pedir. Mas tenho a certeza que tenho menta.) - Disse ela a sorrir. - I'll check on the shelf. (Vou procurar na prateleira.) - Ela chegou-se à prateleira das especiarias e procurou o chá. Tinha-o na última prateleira. E ela ainda conseguia ser mais baixa que a prateleira. - Would you be kind and reach it for me? I'm not very tall as you can see. (Podia fazer a gentileza de o alcançar por mim? Não sou muito alta como pode ver.)

- Sure. (Claro.) - Ele chegou-se à prateleira, esticou-se e agarrou no pequeno pacote. Qual não foi a sua decepção quando viu o tamanho do pacote. - Do you have more? (Tem mais?).

- Yes, I think. (Penso que sim.) I'm sorry if we don't have what you desired, we usualy don't sell things for other stores to sell. (Peço desculpa se não tenho o que desejava, mas habitualmente não vendemos coisas para outras lojas venderem.) I understand your deception. (Compreendo a sua decepção. )

- Oh, don't worry, it's only tea. Anyway, I don't think that french people are great tea drinkers. (Oh, não se preocupe, é só chá. Além disso, não acho que os franceses sejam grandes consumidores de chá.)

- Not as much as british people. (Não tanto como os ingleses.) - Disse ela divertida. - You didn't told me what you were selling. I'm curious. (Não me disse o que estava a vender. Estou curiosa.)

- Books and coffee and desserts. (Livros, café e sobremesas.)

- Oh, so you are owner of a patisserie and a bookstore. (Oh, então é dono de uma pastelaria e uma livraria.)

- Yes. (Sim.)

- That's interesting. (Interessante.) I hope to visit you soon. I want to try a cappuccino. (Espero visitá-lo em breve. Quero exprimentar um cappuccino)

- I'm a good capuccinno maker. (Sou bom a fazer cappuccinos.) - Ela sorriu-lhe.

- Well, you'll take the mint tea? (Bem, vai levar o chá de menta?)

- Yes, if it isn't for costumers, I'll drink it at home. It's healthier than whiskey. (Sim, se não fôr para os clientes, bebê-lo-ei em casa. É mais saudável do whisky.) - Disse ele a sorrir. Ela riu.

- Anyway, there is green and black too. And , we have apples, cinamon and lemons...you can always make apple, cinamon and lemon tea, if you have apples, cinamon and lemons, of cours. The apples and lemons arrived here today, they're fresh. The cinamon comes in little pots. It's a little bit expensive. (De qualquer maneira, está aqui chá verde e preto. E temos maçãs, canela e limões...sempre pode fazer chá de maçã, canela e limão. As maçãs e os limões chegaram hoje, estão frescos. A canela vem em frascos pequenos. É um pouco cara.)

- Well, i'll take it! (Bom, eu levo!) - Exclamou ele encolhendo os ombros.

- Good, i'll put it all in a bag for you! (Boa, vou por tudo num saco para si!)

- How much? (Quanto é?)

- Seven francs. (Sete francos)

- You were right, cinamon is not cheap in France. (Tinha razão, a canela em França não é barata.) - Ela riu.

- Qu'est-ce qu'il dit? (Que diz ele?)- Perguntou o dono da loja.

- Il a dit que la cannelle n'est pas a prix bas a là France. (Elle disse que a canela não é barata na França.)

- Pas en Amerique non plus! (Nem na América).

- Well, thank you. And good day. (Bom, obrigada. E bom dia. )

- Good day. (Bom dia.) - E trocando mais uns quantos olhares cúmplices Vincent saiu e abriu a loja, tendo trabalhado o dia inteiro, não se permitindo a olhar a rapariga com quem conversara.

Mais tarde apercebeu-se que não sabia o nome dela. Tinha de lhe perguntar,mas isso ficava para o dia depois do seu cházinho de menta e uma noite bem dormida.

Paris do outro lado da rua

Ah! Paris!


O lugar onde tudo acontece, tudo é maravilhoso! O Amor é maravilhoso! A Música é maravilhosa, a paisagem é maravilhosa, a Arte é maravilhosa.


Terra de artistas e escritores de grande gabarito.


Estávamos no Verão de 1947. A guerra tinha acabado fazia dois anos, mas havia sempre um festejo a fazer.


Na rua dos cafés em Paris, um acordeonista tocava sem cessar.


As esplanadas estavam cheias.


Naquele momento chegava no eléctrico em que vinha Vincent Jones, vindo da América para abrir o seu negócio: Uma livraria e um café.


Era a altura perfeita.


As duas lojas ficavam perto uma da outra e seria fácil geri-las. Era preciso antes de tudo contratar pessoal para limpar as lojas. Depois arranjá-las, pôr-lhes vidros novos, móveis novos, maquinaria nova. No fim decorá-las.

Passou uma semana a fazer isso. Não viu Paris.

Quando acabou essa semana, abriu a loja e pôs-se a trabalhar.

Em casa fizera a mesma coisa.

Pagou a toda a gente. Não ficou a dever nada.

Era um moço pacato, daqueles que não gostam da Paris barulhenta. Mas era exactamente onde ele estava.



No outro lado da rua, vivia Françoise Roumanoff.

Oh! Mulher aquela! Bela e doce. Cara de quem quer festa. Tom brincalhão no rosto e na voz. Lábios sempre pintados de vermelho, eyeliner preto carregado nos olhos meigos e festivos, cigarro na boca e livro na mão nos tempos livres.

Uma rapariga totalmente louca.

Louca pela vida, louca para viver. Tinha acabado os estudos e juntou-se ao pai na mercearia.

Para ganhar mais algum dinheiro dava aulas de ballet num pequeno estúdio que alugara.

Tinha corpo de bailarina, era bastante disciplinada, bem disposta, culta e generosa.

Filha assim, todos os pais queriam.

Também gostava de namoriscar, mas os seus relacionamentos eram algo de que não se orgulhava.

O primeiro namorado que tivera mandara-o bugiar depois deste lhe ter dito que ela não podia dançar mais.

Os outros foram-lhe fazendo outras exigências do mesmo tipo. E ela nunca deu o braço a torcer. Se não gostavam dela como ela era, então deviam ser eles a mudar.

Não chorava por um namoro acabar.

Para quê? Perder tempo a pensar em quem não merece? Nunca!



Entretanto, como tinha pouca clientela, Vincent foi até à rua um bocado.

Encostou-se ao poste da luz e começou a fumar um cigarro.

Foi então que ele viu a bela criatura.



Ela vinha a sair da loja para carregar as caixas de fruta para dentro.

A rapariga tinha um vestido vermelho às bolinhas brancas e sapatos pretos de salto. Tinha uma boina francesa preta na cabeça cor de asa de corvo. A boca toda ela pintada de vermelho, os olhos de eyeliner preto e rímel que lhe fazia as pestanas grandes sobressaírem, de resto não tinha mais maquilhagem nenhuma. As unhas estavam cuidadosamente pintadas de vermelho.

E os rapazes seguiam todos com o olhar aquela sillouette bela, colorida e bem arranjada.



Via-se mesmo que era francesa.

- Bonjour, mademoiselle! (Bom dia, menina!)- Diziam os marinheiros.

- Salut, les gars! Allez travailler! (Olá rapazes! Vão trabalhar! )- Exclamou ela, com uma alegria imensa. Vincent riu.

Era mesmo típico de França aquela atitude alegre e boémia de rapazes a conversar as raparigas.

E claro, papa não gostou que conversassem a filha.

- Arrête de parler avec eux. Tu sais bien comment les marines sont. (Pára de falar com eles. Sabes bem como são os marinheiros).

- Oui, papa! (Sim, papá.) - E ela foi alegremente descarregar a fruta da carrinha.

Os olhares de Françoise e de Vincent cruzaram-se e ela atrevida mandou-lhe um beijo.

E ele para entrar na brincadeira fingiu que o apanhou. Ela riu à gargalhada.

- Bonjour Monsieur! (Bom dia, senhor! )

- Hello, Miss! (Bom dia, menina!)

- Oh! Vous êtes americain? Pardon...Are you american? (Você é americano? ) - Ele riu. Gostou do sotaque carregado, um misto de francês com inglês.

- Yes! I'm affraid so. (Receio que sim!) - Respondeu ele.

- Why are you afraid? I won't bite you. (Porque é que receia? Não vou mordê-lo.) - E desta vez foi Vincent que riu à gargalhada.

Gostou dela. Gostou mesmo dela.