sábado, 23 de outubro de 2010

Paris do outro lado da rua

Ah! Paris!


O lugar onde tudo acontece, tudo é maravilhoso! O Amor é maravilhoso! A Música é maravilhosa, a paisagem é maravilhosa, a Arte é maravilhosa.


Terra de artistas e escritores de grande gabarito.


Estávamos no Verão de 1947. A guerra tinha acabado fazia dois anos, mas havia sempre um festejo a fazer.


Na rua dos cafés em Paris, um acordeonista tocava sem cessar.


As esplanadas estavam cheias.


Naquele momento chegava no eléctrico em que vinha Vincent Jones, vindo da América para abrir o seu negócio: Uma livraria e um café.


Era a altura perfeita.


As duas lojas ficavam perto uma da outra e seria fácil geri-las. Era preciso antes de tudo contratar pessoal para limpar as lojas. Depois arranjá-las, pôr-lhes vidros novos, móveis novos, maquinaria nova. No fim decorá-las.

Passou uma semana a fazer isso. Não viu Paris.

Quando acabou essa semana, abriu a loja e pôs-se a trabalhar.

Em casa fizera a mesma coisa.

Pagou a toda a gente. Não ficou a dever nada.

Era um moço pacato, daqueles que não gostam da Paris barulhenta. Mas era exactamente onde ele estava.



No outro lado da rua, vivia Françoise Roumanoff.

Oh! Mulher aquela! Bela e doce. Cara de quem quer festa. Tom brincalhão no rosto e na voz. Lábios sempre pintados de vermelho, eyeliner preto carregado nos olhos meigos e festivos, cigarro na boca e livro na mão nos tempos livres.

Uma rapariga totalmente louca.

Louca pela vida, louca para viver. Tinha acabado os estudos e juntou-se ao pai na mercearia.

Para ganhar mais algum dinheiro dava aulas de ballet num pequeno estúdio que alugara.

Tinha corpo de bailarina, era bastante disciplinada, bem disposta, culta e generosa.

Filha assim, todos os pais queriam.

Também gostava de namoriscar, mas os seus relacionamentos eram algo de que não se orgulhava.

O primeiro namorado que tivera mandara-o bugiar depois deste lhe ter dito que ela não podia dançar mais.

Os outros foram-lhe fazendo outras exigências do mesmo tipo. E ela nunca deu o braço a torcer. Se não gostavam dela como ela era, então deviam ser eles a mudar.

Não chorava por um namoro acabar.

Para quê? Perder tempo a pensar em quem não merece? Nunca!



Entretanto, como tinha pouca clientela, Vincent foi até à rua um bocado.

Encostou-se ao poste da luz e começou a fumar um cigarro.

Foi então que ele viu a bela criatura.



Ela vinha a sair da loja para carregar as caixas de fruta para dentro.

A rapariga tinha um vestido vermelho às bolinhas brancas e sapatos pretos de salto. Tinha uma boina francesa preta na cabeça cor de asa de corvo. A boca toda ela pintada de vermelho, os olhos de eyeliner preto e rímel que lhe fazia as pestanas grandes sobressaírem, de resto não tinha mais maquilhagem nenhuma. As unhas estavam cuidadosamente pintadas de vermelho.

E os rapazes seguiam todos com o olhar aquela sillouette bela, colorida e bem arranjada.



Via-se mesmo que era francesa.

- Bonjour, mademoiselle! (Bom dia, menina!)- Diziam os marinheiros.

- Salut, les gars! Allez travailler! (Olá rapazes! Vão trabalhar! )- Exclamou ela, com uma alegria imensa. Vincent riu.

Era mesmo típico de França aquela atitude alegre e boémia de rapazes a conversar as raparigas.

E claro, papa não gostou que conversassem a filha.

- Arrête de parler avec eux. Tu sais bien comment les marines sont. (Pára de falar com eles. Sabes bem como são os marinheiros).

- Oui, papa! (Sim, papá.) - E ela foi alegremente descarregar a fruta da carrinha.

Os olhares de Françoise e de Vincent cruzaram-se e ela atrevida mandou-lhe um beijo.

E ele para entrar na brincadeira fingiu que o apanhou. Ela riu à gargalhada.

- Bonjour Monsieur! (Bom dia, senhor! )

- Hello, Miss! (Bom dia, menina!)

- Oh! Vous êtes americain? Pardon...Are you american? (Você é americano? ) - Ele riu. Gostou do sotaque carregado, um misto de francês com inglês.

- Yes! I'm affraid so. (Receio que sim!) - Respondeu ele.

- Why are you afraid? I won't bite you. (Porque é que receia? Não vou mordê-lo.) - E desta vez foi Vincent que riu à gargalhada.

Gostou dela. Gostou mesmo dela.

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